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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Professores são educadores, não babás

Entrevista: Ron Clark

Autor do 2º artigo mais compartilhado no Facebook em 2011, americano diz que pais desrespeitam regras de escolas, pondo em risco o futuro dos filhos

"Hoje, existe uma preocupação grande com a autoestima da criança. Por isso, muitas pessoas se veem obrigadas a dizer aos pequenos que eles fizeram um ótimo trabalho e que são brilhantes, mesmo quando isso não é verdade"
O segundo artigo mais compartilhado em 2011 por usuários americanos do Facebook foi escrito por um professor, Ron Clark (o primeiro trazia fotos da usina de Fukushima). Mais de 600.000 pessoas curtiram o texto na rede, escrito a pedido da rede de TV CNN e intitulado "O que os professores realmente querem dizer aos pais". O artigo descreve um cenário de guerra, travada entre pais e professores. Na visão de Clark, os pais vêm transferindo suas responsabilidades para a escola, sem, contudo, aceitar que seus filhos se submetam de fato às regras da instituição. Por isso, assim que surge a primeira nota vermelha ou uma advertência, invadem a sala de aula culpando os professores – a pretexto de preservar a reputação e o orgulho de seus filhos. "Precisamos estar mais atentos à excelência acadêmica e menos preocupados com a autoestima das crianças", diz o professor, na entrevista concedida a VEJA.com e reproduzida a seguir. "Essas crianças deixam de aprender que é preciso se esforçar muito para conseguir bons resultados. No futuro, elas não terão sucesso porque, em nenhum momento, exigiu-se excelência delas." Clark conhece sua profissão. Aos 39 anos, vinte deles dedicados à carreira, o americano já lecionou na zona rural da Carolina do Norte, nos subúrbios de Nova York e atualmente comanda uma escola modelo no estado da Geórgia que oferece treinamento a educadores. Graças à função, manteve, desde 2007, contato com cerca de 10.000 educadores de diversas partes do mundo, incluindo brasileiros.
Em seu artigo, o senhor fala de um ambiente escolar em que pais e professores não se entendem mais. O que tornou a situação insustentável, como o senhor descreve? A sociedade se transformou. Hoje, vemos pais muito jovens, temos adolescentes que se veem obrigados a criar uma criança sem ao menos estarem preparados para isso. São pessoas imaturas. Por outro lado, temos famílias abastadas, em que pais trabalham fora e são bem-sucedidos profissionalmente. Pela falta de tempo para lidar com os filhos, empurram toda a responsabilidade da educação para a escola, mas querem ditar as regras da instituição. Ou seja, eles querem que a escola eduque, mas não dão autonomia a ela.
Que tipo de comportamento dos pais irrita os professores? Acho que o ponto principal são as desculpas que os pais criam para livrar os filhos das punições que a escola prevê. Se um aluno tira nota baixa, por exemplo, ou deixa de entregar um trabalho, os pais vão à escola e descarregam todo tipo de desculpa: dizem que o filho precisava se divertir, que a escola é muito rigorosa ou que a criança está passando por um momento difícil. Ou, ainda, culpam os professores, dizendo que eles não são capazes de ensinar a matéria. Mas nunca culpam seus próprios filhos. É muito frustrante para os professores ver que os pais não querem assumir suas responsabilidades.
Problemas com notas são bastante frequentes? Sim. Certa vez tive uma aluna que estava indo mal em matemática. A mãe dela justificou-se dizendo que, na escola em que a filha estudara antes, ela só tirava boas notas, sugerindo, assim, que o problema éramos nós, os novos professores. Infelizmente, essa ideia se instalou na nossa sociedade. Se a nota é boa, o mérito é do aluno; se é baixa, o problema está com o professor. E quando as notas ruins surgem, os pais ficam furiosos com os professores. O resultado disso é que muitos profissionais estão evitando dar nota baixa para não entrar em rota de colisão com os pais, que nos Estados Unidos chegam a levar advogados para intimidar a escola.
Os pais poupam os filhos de lidar com fracassos? Hoje, existe uma preocupação grande com a autoestima da criança. Por isso, muitas pessoas se veem obrigadas a dizer aos pequenos que eles fizeram um ótimo trabalho e que são brilhantes, mesmo quando isso não é verdade. Essas crianças deixam de aprender que é preciso se esforçar muito para conseguir bons resultados. No futuro, elas não terão sucesso porque, em nenhum momento, exigiu-se excelência delas. Precisamos estar mais atentos à excelência acadêmica e menos preocupados com a autoestima das crianças.
Que conselho o senhor dá aos professores? É possível evitar que os pais surtem diante de notas ruins e do mau comportamento dos filhos se for construída uma relação de confiança. Em vez  de só procurar os pais quando as crianças vão mal na escola, oriento que os professores conversem com os responsáveis também quando a criança vai bem. Na minha escola, procuro conhecer os pais de todos os meus alunos. Procuro encontrá-los com frequência e envio cartas a eles com boas notícias. Assim, quando tenho que dizer que a criança não está rendendo o esperado, eles me darão credibilidade e confiarão na minha avaliação.
É possível determinar quando termina a responsabilidade dos pais e começa a da escola? As duas partes precisam trabalhar em conjunto. Os pais precisam da escola e a escola precisa do apoio da família para realizar um bom trabalho. Um conselho que sempre dou aos pais é que nunca falem mal da instituição de ensino ou do professor na frente dos filhos. Se a criança ouve os próprios pais desmerecerem seus mestres, perde o respeito por eles. O contrário também é verdadeiro. Os professores precisam respeitar os pais, porque eles são parte fundamental na educação de uma criança.
Em algumas situações a discussão sobre responsabilidades da família e da escola surge com muita força. Em casos de bullying, por exemplo, pais e professores trocam acusações. Sobre quem recai a maior parte da responsabilidade nesses casos? A minha resposta novamente é que precisamos trabalhar em conjunto. Quando o bullying acontece na escola, é obrigação dos professores intervir imediatamente. Mas muitos não agem assim porque querem evitar conflitos com os pais. E isso é muito grave. O bullying está devastando nossas crianças. Precisamos combatê-lo. Para que os professores tenham liberdade para agir, precisam do apoio dos pais. Mas você sabe o que acontece? Muitas vezes, quando os pais são chamados na escola para serem alertados de que seu filho está praticando bullying contra um colega de classe, o que ouvimos é: "Mas qual o problema disso? Tenho certeza de que outros colegas também zombam do meu filho e ele não se sente mal por isso." Mais uma vez, vemos os pais se esquivando da responsabilidade.
A que o senhor atribui o sucesso do artigo que estourou no Facebook? Eu escrevi o que todos os professores tinham vontade de dizer aos pais, mas não podiam dizer, porque isso os enfureceria. O que eu fiz foi dar voz a milhões de profissionais. Fiquei sabendo que muitas escolas imprimiram o texto e enviaram uma cópia a cada família. Na internet, pessoas de outros países também compartilharam a minha mensagem.
O senhor criou uma escola modelo, a Ron Clark Academy. Como é a relação de seus professores com os pais? Procuramos estabelecer uma relação próxima. Como eu disse, estamos constantemente em contato com os pais, nos bons e nos maus momentos. Também promovemos encontros semanalmente, nos quais ofereço aos pais a oportunidade de assistir a uma aula na escola, destinada exclusivamente a eles, para que acompanhem o que está sendo ensinado a seus filhos. Ou seja, trabalhamos muito para conquistar uma relação harmônica. Não estou dizendo que é fácil lidar com os pais. Alguns deles podem ser bem malucos.
O senhor, na sua escola, recebe professores de diversas partes dos Estados Unidos e tambem de outros países, como o Brasil. Além dos problemas de relacionamento com os pais, do que mais professores de todo o mundo reclamam? As avaliações tiram o sono dos professores. Não sei exatamente como funciona no Brasil, mas nos Estados Unidos os professores são constantemente cobrados a melhorar o desempenho de suas escolas em testes padronizados. E todo o processo educacional passa a girar em torno de algumas provas. Isso é massacrante, para os alunos e para os professores. Os professores precisam de mais diversão na sala de aula.

Fonte: http://veja.abril.com.br



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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Formação de professor é um dos maiores problemas da educação, diz especialista

Três semanas atrás, a educadora Wanda Engel levou um susto ao ver a remetente do e-mail em sua caixa de entrada: Hillary Clinton, secretária de Estado dos Estados Unidos. Na mensagem, um convite para fazer parte do exclusivo Conselho Internacional de Liderança Feminina, ligado ao governo americano.
Wanda é a única brasileira do grupo não por acaso. Desde os anos 1980, a professora de geografia que virou ministra da Secretaria de Assistência Social do governo FHC milita pela educação e pela erradicação da pobreza. Foi ela quem unificou o cadastro dos programas sociais que, no governo Lula, deram origem ao Bolsa Família.
Filha de um imigrante alemão e de uma servente, ambos só com a 4ª série, essa carioca do Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro, enveredou pela área da assistência inspirada na ajuda que recebeu da escola em que estudou. Eram livros, uniforme, passagens de ônibus e cestas básicas.
O doutorado em educação e a experiência em Washington, como funcionária do Banco Mundial, não suprimiram o palavreado de quem já gastou muita garganta e muito giz dando aulas. Ela se refere ao estudante com o termo genérico de o menino. Wanda concedeu esta entrevista à revista Época.
Onde está o maior problema do ensino brasileiro?
No ensino médio. O Brasil praticamente já universalizou o ensino fundamental. Antigamente, oito anos de escolaridade bastavam. Mas, na sociedade do conhecimento, você precisa de 11 anos para ter alguma chance. Até 2006, a exigência de ensino fundamental e médio no mercado de trabalho empatava. Depois, a exigência de empresas pelo ensino médio triplicou. O país coloca 97% das crianças no ensino fundamental, mas só 50% dos que têm de 15 a 17 anos estão no ensino médio. E não têm bom desempenho. Só metade deles termina. Vai ser uma geração perdida e o apagão de mão de obra vai piorar.
O ensino médio deveria ser profissionalizante?
Não todo. Mesmo na Alemanha, que tem um dos maiores índices, o ensino profissionalizante é só 30% do total. As pessoas mudam de trabalho, as empresas mudam suas exigências. Mas com certeza é preciso flexibilizar o currículo do ensino médio. No meu tempo, tinha científico e clássico. Quem queria ser jornalista não precisava saber física. Agora não. Todo mundo tem de ser generalista. São 16 disciplinas obrigatórias. Aí o menino desiste.
Nosso currículo é assim tão ruim?
Ele não tem a menor flexibilidade. Há quem afirme que só português e matemática deveriam ser obrigatórios, além de alguma coisa de ciências. O resto deveria ser decidido por interesse individual. O menino precisa saber bem português para se comunicar. E matemática, que desenvolve o raciocínio lógico e o poder de abstração. É uma das missões da escola desenvolver esse poder de abstração. O pensamento de quem não é escolarizado é um terreno fértil para políticos populistas. Com cada menino que morre assassinado, o Brasil joga fora sua maior riqueza, os recursos humanos. Vai tudo para o ralo: educação, saúde…
Há tratamento ideológico da educação hoje no Brasil?
Com certeza. Os livros de história são absolutamente tendenciosos. Não desenvolvem o senso crítico. O ensino ideológico prepara pessoas para pensar apenas de determinada forma. E não é esse o papel da escola. Seu papel é passar conhecimentos, valores e significados. Hoje, os cientistas sociais falam que o capital social é formado de respeito, confiança e solidariedade. São os alicerces de uma sociedade coesa. A escola precisa desenvolver isso.
Qual é o problema mais grave da educação brasileira?
A formação do professor. Minas Gerais teve uma experiência em que ofereceu um banco de questões para os professores, e eles montavam as provas. Mas precisavam botar a resposta no sistema. A quantidade de professores que erravam tudo era impressionante. Muitos não sabem o conteúdo nem têm metodologia para ensinar. Mas aprendem Paulo Freire, os construtivistas, todas as teorias de educação. Tudo o que na prática não faz tanta diferença. Não estou dizendo para jogar no lixo. Estou dizendo que o professor precisa de mais do que isso.
Como é sua experiência como dirigente do Instituto Unibanco de educação?
Resolvemos deixar os problemas estruturais um pouco de lado. Chegamos à escola e dizemos: Você quer dar a volta por cima? Quer aumentar seus resultados? Eu te ensino como fazer, te dou apoio técnico, dinheiro e autonomia. Mas vou acompanhar. As escolas têm até três anos para melhorar. Não é adotar a escola, mas dar um sacode nela. Fizemos em 22 escolas no Rio Grande do Sul e 20 em Minas Gerais. E elas conseguiram. Não mudou nada nem professor, nem salário, nem currículo. Existe um espaço para transformação que as pessoas não usam.
Há quem defenda colocar o ranking do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, na porta das escolas…
Não sou contra, mas é complicado, só isso não resolve. No ensino médio, que é o maior problema, não existe uma prova nacional. O Enem é obrigatório apenas para quem vai prestar vestibular. Algumas escolas encorajam só os melhores a fazer. É preciso haver um exame universal e obrigatório no fim do ensino médio, como há o Ideb para o ensino básico.
Dizem que um exame universal é impossível em um país com tanta diversidade. Há escolas indígenas em que mal se fala português.
Bobagem. Há até quem diga que nem currículo mínimo poderia haver, por causa da diversidade. Mas o índio tem direito de saber o mesmo que o menino de São Paulo.
A violência afeta a educação?
Sim, perdemos jovens para o desemprego, o subemprego, o emprego marginal e para a morte. O número de mortes por acidentes ou violência no Brasil é em média de 70 mil por ano (em 2009 foram 130 mil). Muitos jovens pobres morrem com 20 anos, embora pudessem trabalhar pelo menos até os 40. Faça a conta: o Brasil perde por ano 2,8 milhões de anos de trabalho dessas pessoas. Com o menino que morreu, você já gastou com educação, saúde, alimentação. Vai tudo para o ralo. O Brasil joga fora sua maior riqueza, os recursos humanos.
A senhora foi diretora do primeiro Ciep, na Mangueira, no período em que o tráfico começou a dominar territórios no Rio de Janeiro. Como foi isso?
Convivi de perto com a morte dos meninos, muitos assassinados. O chefe do morro na época era o Pedro Bala. Apesar de tudo, tenho boas lembranças. No primeiro ano, 1983, alfabetizamos os meninos com o samba-enredo que tinha dado a vitória à Mangueira naquele Carnaval. Infelizmente, naquele ano, já morreu o primeiro. Estava jurado de morte. Dos 21 alunos da primeira turma alfabetizada, apenas sete estão vivos.
Que cargo é esse para o qual Hillary Clinton convidou a senhora?
Ainda não sei como o tal Conselho funcionará exatamente. Mas sei que Hillary sempre militou entre as feministas e defende a importância da mulher no desenvolvimento dos países, ricos ou pobres. Concordo. Quando você oferece melhores oportunidades para as mulheres, a tendência é que o país cresça economicamente. Os dados mostram que vários índices dependem da escolaridade da mulher: mortalidade infantil, abandono escolar, saúde. Hillary tem mostrado, em palestras pelo mundo, que, nos locais em que predomina a liderança da mulher nos negócios, o PIB cresce mais.
Como, na prática, a mulher é influência tão forte no desenvolvimento?
Teoricamente, há papéis de homem e mulher muito definidos na sociedade: ele seria o provedor; ela, a mantenedora do lar. Nas famílias mais pobres, o homem não tem mais esse poder. O número de homens que abandonam o lar é grande. Outros tantos são alcoólatras e desempregados. São as mulheres que seguram a barra. Mesmo quando o homem trabalha, é a mulher que decide onde pôr o dinheiro.
Era assim na sua família?
Em um período, sim. Meu pai era um mecânico que tinha vindo da Alemanha. Minha mãe, no começo, era do lar. Os dois só tinham até a 4ª série. Morávamos no Méier, éramos classe média baixa. Meu pai ficou tuberculoso e diabético ao mesmo tempo. E minha mãe, que nunca tinha trabalhado, precisou botar dinheiro dentro de casa. Conseguiu um emprego de servente no Instituto de Educação. Estudei lá por 11 anos. Recebia tudo: uniforme, livros, cesta básica. Sou fruto de uma política de assistência da escola.

 Fonte: http://www.blogeducacao.org.br
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ENTREVISTA - Os pais na janela


Márcio Seidenberg


Como um estandarte, o professor Claudio Moura Castro tem iniciado suas palestras sobre a contribuição familiar na educação com a imagem de uma senhora coreana de cabelos grisalhos diante de uma janela. Ele explica que a mulher está do lado de fora da escola espiando o que se passa dentro da sala de aula porque quer verificar se os netos estão concentrados e prestando atenção ao professor ou, em seu linguajar mineiro, “olhando para a mosca”.

Esta é uma obsessão das vovós daquele país que revela, talvez de forma exagerada para os nossos parâmetros e a nossa cultura, a crença de que a educação é o alicerce para o sucesso das crianças. “Fala-se do milagre coreano, mas pouco do esforço das famílias”, escreveu Castro em artigo sobre a atitude das avós asiáticas. Já o comportamento dos pais brasileiros – eles têm em média sete anos a menos de estudo do que os filhos –, em sua avaliação, é lastimável em todas as classes sociais. A ausência no acompanhamento do dever de casa, a postura passiva em relação à escola e a falta de diálogo dentro do lar ajudam a explicar o desempenho reprovável da educação.

Por considerar a importância da família, Castro, formado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado pela Universidade de Yale e doutorado pela Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, vem “pregando” esse discurso em suas conferências e converteu, num manual de instruções, procedimentos adequados para os pais. Do Ph.D. ao sem instrução, todos podem fazer a lição de casa. Alguns são deveres prosaicos, estratégias de simples execução, a custo zero e que se baseiam em algo primordial da relação familiar: a predisposição permanente dos pais em desejar e querer o bem dos filhos.

Nesta entrevista, Claudio Moura Castro comenta o grande salto educacional das cidades de médio porte e reitera a atitude e o envolvimento contínuo da família como uma célula central que permeia todo o processo de aprendizagem dos filhos. Ele afirma que a educação brasileira precisa mesmo é de uma revolução e sobre a dificuldade dos pais em conseguir tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos, é incisivo e contundente: “sempre há tempo para o que é importante.”

Gestão Educacional: O desenvolvimento da educação rende uma discussão muito ampla e, em suas palestras, o senhor reitera a importância da parceria dos pais nesse objetivo, vem advogando o papel da família...

Claudio de Moura Castro:É um lado da equação. É como uma tesoura: uma perna só não corta. A família e a escola têm que trabalhar em comum acordo, cada uma fazendo o seu serviço. É que na família (a contribuição) tem custo zero. No caso do professor, é preciso reunir condições para mantê-lo motivado: bom salário, prêmios. Para melhorar a escola, é necessário contratar mais e melhores professores, ter mais material, ou seja, mais esforço, mais insistência. Tudo é morro acima. Na família, você não precisa dizer ao pai: “queira bem ao seu filho, ajude-o a ter uma vida melhor”. Os pais estão permanentemente motivados a querer o melhor para o seu filho. Se dermos a eles instrumentos para fazer o certo, o resultado sai de graça, (é uma ação que) não custa recursos à sociedade. Se os pais entenderem, acreditarem e praticarem teremos uma melhoria na educação.

Gestão Educacional: Sobre esse conjunto de práticas, é como se os pais tivessem que voltar para a escola...

Castro:Na Coreia e no Japão, a mãe está voltando para a escola. Os imigrantes japoneses que vieram para o Brasil eram analfabetos. Não tinha nem escola para ir. De qualquer forma, (para contribuir com o desenvolvimento escolar do filho), se um pai tem Ph.D. em educação, ajuda. Mas, se ele é analfabeto, e fica enchendo o saco do menino para estudar, também ajuda.

Gestão Educacional: Como o pai sem formação pode apoiar?

Castro:Os fatores mais determinantes são falar com a criança e vigiar o dever para casa. Fiz uma pesquisa com escolas brasileiras associadas de rede (de classe média, classe média baixa e alta) e descobri que (essas ações) homogeinizam o aluno e, dentro desse panorama, os filhos cujos pais vigiam o dever de casa são os que melhor se saem na escola.

Gestão Educacional: O senhor acredita que há diferenças em como pais pobres e ricos veem a escola?

Castro: Com certeza. O pobre é intimidado pela escola, não sabe cobrar, não sabe ajudar, não percebe a diferença de qualidade da educação. Já os ricos sabem o que fazer, podem estimular de todas as maneiras possíveis o desempenho escolar. Isso, claro, varia a cada cultura. Por exemplo, os judeus de classe média alta dos Estados Unidos exercem uma pressão brutal sobre as crianças para que rendam. Por outro lado, os pais de classe baixa dos Estados Unidos, formada por latinos e hispânicos, não se preocupam. O resultado é que a diferença de rendimento é absurda.

Gestão Educacional: E a classe média? O senhor afirma que ela não dá exemplos de interesse e de participação.

Castro: Claro que muito mais do que a classe baixa. Mas, comparativamente aos padrões internacionais, é muito ausente.

Gestão Eduacional: De acordo com a pesquisa “A participação dos pais na educação de seus filhos”, realizada pelo IBOPE em 2005, 40% dos pais dizem não ter tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos. Parece indicar indiferença ou uma dificuldade real?

Castro: Começa com a mesma percepção equivocada de que não há um problema sério de qualidade na educação da classe média. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) mostra que a classe alta brasileira obtém resultados piores do que os filhos de operários da Europa. Dizer que não tem tempo é o mesmo que dizer que não considera importante. Para o importante, sempre há tempo.

Gestão Educacional: Falando sobre a outra ponta da tesoura, a escola, como ela pode contribuir para a melhoria do desempenho dos alunos?

Castro:A escola tem um currículo, mas deveria fazer o que se chama de redução sociológica. Olhar aquele mundão de coisas e pensar: “o que é importante?” Na prática, ensinar a ler, a escrever, a falar, a ouvir e a resolver problemas que envolvem números. Não interessam os teoremas disso e daquilo. O importante são os fundamentos da educação, e não se iludir com as lantejoulas. É aprender a manejar a sua língua, porque isso significa ter a ferramenta para poder aprender pelo resto da vida. A consequência da educação é tornar o aluno mais educável. Você se torna capaz de se educar cada vez mais rápido.

Gestão Educacional: O senhor disse já ter apresentado em escolas a palestra “A vóvó na janela” para pais de alunos. Qual foi o resultado deste trabalho?

Castro:Os pais que comparecem são os motivados. Então estou pregando para os convertidos. Mas o desafio são os que não vão. Esse realmente é o problema.

Gestão Educacional: Como avançar? Qual o papel da escola nessa aproximação?

Castro: Água mole em pedra dura... (risos). No fundo, não tem solução mágica. A escola tem que seduzir os pais, precisa trazê-los para perto dela, conquistá-los com atividades atraentes, então os pais serão sócios da escola para mostrar bons resultados.

Gestão Educacional: Um dos pilares da reforma do ensino de Nova York, iniciada em 2002, foi a criação de uma posição de coordenador de pais em cada uma das escolas públicas da cidade. Ele exerce a função de intermediário entre o ambiente escolar e a família. O senhor defenderia um programa com este perfil para as escolas públicas brasileiras?

Castro: É possível, sim. Não parece má ideia. Mas, como todas as iniciativas nessa direção, há muitas maneiras de se chegar ao mesmo resultado. É questão de experimentar e ver o que dá mais certo.

Gestão Educacional: Pelas suas andanças pelo Brasil, quais boas práticas tem observado nas escolas?

Castro: O que está acontecendo é a revolução das escolas nas cidades de médio e pequeno portes. Há municípios que estão conseguindo fazer uma grande mudança na educação. Dentre aquelas 33 escolas que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontou que renderam mais (na primeira edição do estudo Aprova Brasil, em 2006), uma fica em São Brás do Suaçuí (MG), entre Lafaiete e São João del Rey. Com 5 mil habitantes. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) é semelhante ao da Europa. Lá não tem indústria. Não tem comércio, só um bocadinho.

Gestão Educacional: E quando nos aproximamos das escolas das grandes cidades?

Castro:Em São Paulo, de um lado tem o Bandeirantes, o São Luís; de outro, a favela, que puxa a média para baixo. O problema da favela não é de educação, é de guerra civil. Como falar em educação se as pessoas estão preocupadas em levar uma bala perdida? É o que acontece nas favelas do Rio. É uma praça de guerra e, enquanto não pacificar, a educação vai ficar em segundo plano. Não adianta consertar apenas a educação ali, é preciso transformar tudo.

Gestão Educacional: Mas qual a função da educação no enfrentamento da pobreza e da condição de vida precária? Quais experiências de transformação social por meio da educação o senhor destacaria?

Castro: Há experiências interessantes de usar a escola para puxar a comunidade toda para cima. Nova York tem experimentos interessantes nesta linha. Mas, como regra geral, diria que, para a escola, sozinha, tentar se erguer em uma região conflagrada é muito difícil e sem sentido. Se há vontade de melhorar a comunidade, por que esperar que a escola faça todo o serviço? Faz mais sentido planejar ações com múltiplos alcances, envolvendo educação, emprego, assistência social e esportes.

Gestão Educacional: O senhor afirmou em entrevistas que a educação brasileira não está em crise, que nós precisaríamos provocar essa crise. Como?

Castro: Eu não tenho uma fórmula. Sei que é falando, insistindo e apresentando dados quantitativos e qualitativos. Uma coisa é dizer que a educação vai mal. Outra é dizer que o Brasil é o último no ranking do Pisa. Ou ainda: no quarto ano, metade dos alunos não está alfabetizada no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Estes números é que têm potência de fogo para mostrar que a educação está ruim. São eles que precisam ser repetidos.

Gestão Educacional: Vi professores saindo entusiasmados da sua palestra. Tornou-se um “legado” tentar passar para os pais a importância de estarem dentro do universo da escola?

Castro: É um trabalho que tem uma rentabilidade muito grande no sentido de que custa convencer os pais, mas o processo depois que se criou o vínculo não tem custo. Só retorno. O pai não terá que gastar mais. Talvez comprar livros, revistas. É mais a atitude.

Gestão Educacional: O senhor vem repetindo o discurso da vovó na janela desde 2004, há muito tempo...

Castro: Muito tempo mesmo. Essas coisas captam o espírito. Como as caricaturas, que realçam o exagero daquelas características do indivíduo que já são exageradas. A vovó na janela! É um absurdo, é impensável aqui botar uma velha na janela para ver se o menino está prestando atenção ou se tá olhando para a mosca. São osslogans. Esse pegou e é bom.


Texto publicado originalmente na edição de Agosto de 2010 da revista Gestão Educacional

Fonte: profissaomestre.com



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sábado, 22 de outubro de 2011

Especialista defende sistema de avaliação participativo para educação infantil

O crescente debate sobre a educação infantil no país tem revelado que, para além do aumento do número de vagas nas creches, existe uma discussão a ser feita sobre a qualidade do ensino oferecido para essa faixa etária.
Recentes pesquisas demonstram que, apesar terem melhorado a infraestrutura e a parte pedagógica, as creches e pré-escolas do Brasil ainda oferecem poucos estímulos ao cotidiano das crianças.
“As rotinas de alimentação, sono e as transições tomam muito tempo, há longos períodos de espera e ociosidade e são desenvolvidas atividades muito pouco variadas com as crianças”, afirma a especialista em educação infantil, Maria M. Malta Campos.
 
Em entrevista ao Portal Aprendiz, a também professora do programa de pós-graduação em Educação da PUC-SP, presidente da ONG Ação Educativa e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas defendeu o cumprimento das diretrizes nacionais curriculares e um sistema de avaliação participativo para a educação infantil.
“Não podemos ficar dois ou três anos esperando para constatar que as crianças aprenderam muito pouco, como acontece hoje com os sistemas centralizados de avaliação. São necessários procedimentos que incidam no processo, ao longo do percurso das crianças”, ressalta.

Portal Aprendiz - Como a senhora analisa a passagem da educação infantil dos campos da assistência social e bem-estar para o campo da educação no Brasil? Qual foi o papel da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nesse processo?
Maria M. Malta Campos - Na realidade, a LDB apenas legitimou na lei o que diversos grupos já preconizavam. Havia se formado um relativo consenso de que a cobertura e a qualidade do atendimento nas creches poderiam ser melhoradas com a passagem para a educação (a pré-escola sempre esteve na educação). Acho que ganhamos muita coisa – formação melhor dos professores, mais atenção para a parte pedagógica, melhor planejamento das redes, melhores condições de infraestrutura. Mas também perdemos algumas coisas: maior experiência da área de bem-estar social em trabalhar com as comunidades e as famílias, menos consideração por parte da área educacional para a necessidade de integrar melhor os serviços de saúde e educação, por exemplo.

Portal Aprendiz - A que se atribui o debate crescente sobre a educação infantil no Brasil e no mundo?
Malta - Desde pelo menos a década de 1960, periodicamente, a atenção se volta para a educação da criança pequena. O reconhecimento de que essa fase é muito importante no desenvolvimento cognitivo da criança já existe faz tempo, mas parece que periodicamente, a permanência dos problemas de fracasso escolar no ensino fundamental faz com que se apele para a educação infantil no sentido de dar melhores condições às crianças para alcançarem bons resultados nesse início do ensino fundamental.
Acho que esse reconhecimento da educação infantil é importante, mas é sempre bom lembrar que ela não existe só para preparar as crianças para o futuro: as crianças precisam viver bem sua infância, no presente, ter oportunidades de conviver com outras crianças em espaços coletivos e se desenvolver de forma integrada e as famílias precisam de apoio para educar seus filhos, pois a educação das novas gerações não é só uma responsabilidade individual das famílias, mas é também uma responsabilidade da sociedade como um todo.

Portal Aprendiz - Como a senhora avalia a aplicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), nos currículos das creches e pré-escolas brasileiras?
Malta - Bem, eu não tenho dados sistemáticos e abrangentes sobre isso, mas as informações de que disponho revelam que esse documento é pouco divulgado, pouco conhecido e pouco utilizado nas escolas e creches. Legalmente ele é mandatório, ou seja, precisa ser seguido. Acho que é um bom documento, contém diretrizes importantes, mas para ser colocado em prática, ele precisa ser traduzido, na escala municipal e nas unidades, por currículos e projetos pedagógicos que contenham orientações mais práticas e detalhadas, mas também flexíveis, de forma que os professores possam ao mesmo tempo saber onde precisam chegar com as crianças, mas possam adaptar as orientações para a realidade de suas creches e escolas e de suas crianças.

Portal Aprendiz - Qual o diagnóstico atual em relação à formação dos professores que atuam na educação infantil? A temática vem sendo abordada pelos cursos de pedagogia do país de maneira satisfatória?
Malta - Infelizmente, a forma como está organizada a formação dos professores no país deixa muito pouco espaço para as especificidades da educação infantil, em especial para a creche e as crianças menores. Como mostrou uma pesquisa coordenada pela professora Bernardete Gatti, os currículos dos cursos de pedagogia reservam uma proporção muito pequena de sua programação para a educação infantil: cerca de 5% em média. Alguns cursos têm tentado se reformular, incluindo estágios em creches – coisa que a maioria não proporciona – e incluindo conteúdos sobre a educação infantil. Mas tudo isso é ainda muito insuficiente.
Seria preciso que houvesse uma mudança na estrutura desses cursos, talvez com a introdução de módulos, permitindo que os professores se especializassem conforme o perfil de alunos com que vão trabalhar. Hoje eles se formam podendo trabalhar com: creche, pré-escola, primeiros anos do fundamental, educação de jovens e adultos, educação especial etc. É muito difícil uma única formação inicial dar conta de realidades tão diferentes. Por outro lado, o recrutamento de professores nas secretarias de educação também segue o mesmo modelo: muitos concursos não distinguem a etapa educacional em que o professor pode atuar dentro de uma rede. Os concursos de acesso e remoção não exigem, na maioria dos casos, uma adaptação ou uma formação complementar, por exemplo, de alguém que sai da educação de jovens e adultos e vai para uma creche!

Portal Aprendiz - Todas as etapas da educação brasileira possuem indicadores e uma série de avaliações para medir a qualidade do ensino.  Por que isso não ocorre com a educação infantil?
Malta - Na realidade, está começando a acontecer. Foi elaborado o documento Indicadores de Qualidade para a Educação Infantil”, numa parceria do MEC com a Ação Educativa, o UNICEF, a UNDIME e a Fundação Orsa. Atualmente está em andamento uma pesquisa de avaliação sobre o uso desse material. Ele propõe uma avaliação participativa que inclua a equipe da creche ou escola, os pais e os gestores da unidade, contendo uma relação de tópicos que devem ser avaliados. É um começo. Mas eu vejo que as equipes técnicas das secretarias também necessitam orientações e documentos que as ajudem a montar um bom sistema de supervisão pedagógica, para orientar as unidades no processo. Não podemos ficar dois ou três anos esperando para constatar que as crianças aprenderam muito pouco, como acontece hoje com os sistemas centralizados de avaliação. São necessários procedimentos que incidam no processo, ao longo do percurso das crianças. No caso da educação infantil no Brasil, tudo isso ainda precisa ser amadurecido, debatido e testado.

Portal Aprendiz - O que deveria ser levado em conta, caso o Brasil resolvesse adotar um sistema de avaliações para o ensino oferecido para essa faixa etária da população?
Malta - Acho que precisamos começar pela avaliação das condições de funcionamento das unidades em que as crianças estão matriculadas (o que inclui as práticas educativas adotadas no cotidiano). Não faz sentido avaliar as crianças individualmente, se não estão lhes sendo oferecidas mínimas condições de um desenvolvimento pleno e equilibrado. Por outro lado, seria perigoso impor, nessa faixa etária, toda a pressão que sempre acompanha as avaliações que se baseiam em testes individuais de conhecimento realizados em massa. Não acredito que esse tipo de avaliação seja apropriado para essa faixa etária de 0 a 5 anos de idade. Corremos o risco real de termos brevemente altas taxas de repetência nos últimos anos da pré-escola, como já temos, infelizmente, no início do ensino fundamental. Isso seria um enorme retrocesso.

Portal Aprendiz – A senhora concorda com o recente parecer do Conselho Nacional de Educação que orienta as creches a não oferecer atendimento durante as férias? Qual é o significado dessa medida, caso seja adotada pelos municípios, para todos os envolvidos (professores, alunos e famílias)?
Malta - Veja, nesse debate sobre as férias, seria desejável considerar as necessidades das diversas partes envolvidas: pais, crianças, professores, administradores. E acontece que muitas vezes essas necessidades são conflitantes. Se as normas de funcionamento das unidades permitissem maior autonomia e flexibilidade, diferentes encaminhamentos seriam possíveis: a maioria das crianças pode ficar em casa com suas famílias durante um período? Ótimo, as famílias – irmãos, pais, amigos – precisam conviver com as crianças pequenas mais intensamente de vez em quando. Um pequeno grupo de crianças realmente não conta com essa oportunidade – pertencem a famílias uniparentais, seus pais não tem direito a férias, ou enfrentam problemas de saúde?  Então as creches podem se organizar para atender esse pequeno grupo de alguma maneira: realizando um rodízio de férias com as professoras, centralizando um grupo maior de crianças em alguma unidade próxima, enquanto as demais realizam manutenção dos prédios ou alguma reforma. Mas como as redes de escolas e creches em nosso país costumam ser regidas por regras muito rígidas e iguais para todos, caímos nessa situação de ou ter férias para todos ou não ter para ninguém.
Espero que no futuro, as redes possam criar mecanismos para acolher melhor as necessidades das famílias, que os bairros de moradia contem com outros recursos para receber as crianças nas férias (parques, clubes, centros de lazer) e, por seu lado, que a maioria das famílias tenha melhores condições de vida, e em seus empregos, organizando-se para conviver com suas crianças durante as férias escolares. Nesse particular, é bom lembrar que as professoras também são mães e também precisam conviver com seus filhos em algum momento do ano!

Portal Aprendiz - O que seria uma abordagem “ideal” na educação de crianças de 0 a 5 anos? Existe um modelo a ser espelhado pelo Brasil?
Malta - Vivemos numa sociedade plural e muito diversa, então acho difícil pensar em um só modelo ou ideal. Qualquer que seja o modelo, ele precisa respeitar os princípios básicos e os valores consagrados em nossa Constituição: liberdade, responsabilidade social, tolerância, justiça, separação entre estado e religião etc. Não podemos ter escolas que preguem o ódio a outros grupos sociais ou a intolerância religiosa. Por outro lado, temos uma lei que rege a educação nacional, a LDB. Temos documentos nacionais de orientação curricular que precisam ser levados em conta. Dentro dessas referências, existe uma liberdade na escolha de métodos, de percursos, de práticas. Mas também é preciso considerar que a ciência já avançou muito no conhecimento sobre o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social da criança pequena. Não podemos partir do zero. Levando tudo isso em consideração, existem modelos ou linhas de trabalho pedagógico diferentes: há aqueles que seguem uma linha construtivista, há os que se inspiram na experiência das escolas do norte da Itália, há os que se apoiam em currículos como o High Scope, há os que seguem a pedagogia Waldorf, ou a filosofia de Freinet, os caminhos são múltiplos.
O que é preciso é, que qualquer que seja o caminho, os direitos humanos básicos das crianças e de suas famílias sejam respeitados e o direito da criança se desenvolver plenamente e aprender seja garantido.
Portal Aprendiz - Qual o papel da família nessa etapa educacional dos filhos?

Malta - Quanto menor a criança, mais dependente do adulto ela é. A família e a creche precisam trabalhar em conjunto, mantendo uma boa comunicação no processo, para garantir proteção e apoio à criança. Os pais precisam conhecer o trabalho que é realizado na creche e a creche precisa conhecer melhor as famílias. Infelizmente nem sempre as coisas são assim. Há muito preconceito, entre os professores, em relação à família pobre e há muita desconfiança das famílias em relação a uma instituição que não é bem conhecida delas. Qualquer machucadinho que a criança tenha – o que é perfeitamente normal na infância – leva a conflitos na porta da escola ou da creche. Ainda precisamos melhorar muito essa relação.

Portal Aprendiz – O que a senhora destacaria da recente pesquisa realizada por sua equipe em 150 instituições de educação infantil de seis capitais brasileiras?
Malta - Bem, essa pesquisa levantou uma quantidade de informações muito grande e seria impraticável resumir tudo aqui. Mas o que mais marcou foi a constatação de que, na média, as crianças vivem um cotidiano muito carente de estímulos e de atividades interessantes, nas salas de creche e pré-escola onde passam longas horas por dia. As rotinas de alimentação, sono e as transições tomam muito tempo, há longos períodos de espera e ociosidade e são desenvolvidas atividades muito pouco variadas com as crianças. Por exemplo, quase não são contempladas experiências que cubram conhecimentos sobre a natureza, sobre a diversidade cultural, sobre música; existem poucas oportunidades de jogo simbólico, de brincadeiras livres, de atividades em pequenos grupos; as crianças em idade de creche quase não têm contato com livrinhos infantis de figuras e de estórias; cuidados básicos de higiene e de saúde, como lavar as mãos, não são praticados. Encontramos instituições muito boas, mas na média os resultados não foram bons, o que indica que há muito a ser feito para que a qualidade em geral seja aprimorada.

Fonte: http://portal.aprendiz.uol.com.br

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